O ADVOGADO QUE SE TORNOU UMA LENDA DO REGIONALISMO E DA MÚSICA GAÚCHA

O ADVOGADO QUE SE TORNOU UMA LENDA DO REGIONALISMO E DA MÚSICA GAÚCHA

BAGRE FAGUNDES:

A vida acadêmica e o legado do cancioneiro

fronteiriço formado em Direito pela Unicruz

 

A morte do tradicionalista e talentoso músico e compositor Bagre Fagundes, no inicio de agosto (02/08), aos 86 anos, ganhou enorme repercussão na comunidade artística do RS e provocou a consternação de admiradores, amigos e colegas de profissão. Muitas foram as manifestações de pesar de quem vive da arte musical e da produção cultural ligada às nossas raízes. Seu falecimento enlutou gaúchos e gaúchas de todas as querências.

Entre as citações atribuídas ao seu legado como artista e personagem da história contemporânea, lhe foi imputada a condição de advogado, formado no Curso de Direito da Universidade de Cruz Alta. A busca pela comprovação desse registro movimentou esta semana, vários setores da universidade, pesquisando registros do egresso Euclides Fagundes Filho – que é o nome da certidão cartorial do teatino alegretense.

A partir do falecimento do cantor Bagre Fagundes, repercutiu no meio acadêmico da Universidade de Cruz Alta/UNICRUZ o fato dele ter frequentado o Curso de Direito (na época sob a denominação de Ciências Jurídicas e Sociais), na segunda turma de formandos, no ano de 1974. Para fins de registro, cabe explicar que a primeira turma do Curso de Direito, colou grau no mês de março de 1974, e a segunda turma, em dezembro. Daí, a coincidência das duas formaturas terem ocorrido no mesmo ano.

O diploma de formando em Direito pela Unicruz recebido pelo acadêmico Euclides “Bagre” Fagundes Filho, em 22 de dezembro de 1974, aconteceu em solenidade realizada no auditório da Escola Normal Professor Annes Dias, tendo como patrono o professor Luiz Luisi, paraninfa a professora Maria de Lourdes Rousselet e professores homenageados Heitor Silveira Netto e Frederico Baiocchi. Foi uma das mais numerosas nos anais de formatura na história da universidade – com a participação de 117 formandos.

A GAITA DE QUATRO BAIXOS –

Bagre Fagundes era nascido em Uruguaiana, em 3 de outubro de 1939, mas se criou pelas bandas do Alegrete onde ganhou fama como cancioneiro e tocador de uma gaita de quatro baixos – um pequeno e inseparável instrumento comprado de seu irmão Aldo, segundo relatos pelo valor simbólico de “cinco pilas”. Foi assim com essa gaita ponto de dez teclas e quatro baixos, que ele fez história e tirou melodias que ecoaram pelo Rio Grande, incluindo o famoso “Canto Alegretense”.

A relação de Bagre Fagundes com a Unicruz é ainda mais significativa quando se sabe que seu irmão – Júlio Cesar Fagundes, foi seu parceiro e colega por toda a sua formação academia e, ao final, em dezembro de 74, subiu ao púlpito da solenidade no auditório do Annes Dias lotado – para o discurso de orador da turma. Duas legendas da família Fagundes, vindos da distante Alegrete para estudar e se tornearem advogados aqui em Cruz Alta.

As vivências dos Fagundes em Cruz Alta, ainda estão marcadas na lembrança de advogados – que na época eram colegas de faculdade e hoje são bastante conhecidos no setor jurídico, como Edemar Carvalho e José Antônio Roza. Também é possível citar outras referências, como Jurandir Zamberlan, Zalmon Ricachenewsky, Florisbaldo Nascimento Cruz, Gislaine Dobrachinsky, Telmo Tagliari, Nivian de Barros Bullé – entre tantos outros.

Entre os acontecimentos da época, o advogado Edemar Carvalho lembra que os irmãos Fagundes faziam parte de uma confraria que se reunia para celebrar a música gaúcha e alegrar ambientes sociais exaltando a nossa cultura. Isso acontecia, invariavelmente, na residência do advogado e tradicionalista Gregório Bonilla – nas imediações do Ginásio Municipal (esquina do Colégio Totem) ou no salão dos CTGs Querência da Serra e Toríbio Veríssimo.

Na casa da família Bonilla, lembra Edemar Carvalho, as reuniões eram animadas com muita cantoria, churrasco de costela e outras iguarias da culinária gaúcha. Por vezes, uma galinhada ou carreteiro em panela de ferro, já era motivo para reunir os colegas da faculdade e cultuar as tradições. Quando os ânimos estavam mais exaltados e havia disposição da turma, o grupo saía pela cidade para fazer as populares serenatas – parando debaixo da janela de algum flerte ou mesmo surpreendendo as jovens colegas da faculdade.

TURMA DO PORÃO –

“Era uma época em que as pessoas saíam mais para as ruas e outros ambientes urbanos, como as praças públicas, para socializar” conta Edemar Carvalho, muito diferente dos dias de hoje, marcados por um comportamento social mais recluso e voltado para o entretenimento da televisão e o uso excessivo de telas. Animadores musicais, como foi Bagre Fagundes, marcavam sua presença pela simpatia, carisma natural e o bom humor, sempre se destacando pela contação de causos e piadas divertidas.

Do distante município de Realeza, localizado no sudoeste do Paraná, o também formando da turma de 1974 e contemporâneo de Bagre Fagundes – o advogado Pedro Renner, puxa da memória aos 91 anos, coisas que marcaram época. Ele não apenas conheceu, mas teve a oportunidade de passar grande parte do tempo de estudante universitário e criando lembranças afetivas – compartilhando da amizade dos irmãos Fagundes.

Segundo Pedro Renner, um dos fatos que ele guarda com muito carinho são as lembranças da turma que ele chama de “Turma do Porão”. Onde ele se inclui com o irmão Ronald Renner – junto com outros seis estudantes integrantes da pequena “república”: Bagre e Bilico (apelido do irmão Julio Cezar Fagudes) que vieram do Alegrete, mais Oscar Machado, Irani Alberto Teixeira e Luis Airton Roggia Zago, de Cacequi. Pedro e Ronald Renner, vieram de Iraí, com o colega Antenor Renato dos Santos.

CTG PELEGO FURADO –

A amizade da “turma do Porão” se formou pela necessidade deles encontrarem um lugar para se albergar, nos meses em que vinham para Cruz Alta – quando tinham aulas presenciais intensivas pela manhã, tarde e noite. Quem morava em Cruz Alta, Ijuí, Pejuçara e Ibirubá, por exemplo, a frequência era diária, muitos fazendo rotas de transporte em estradas de chão. O que em invernos chuvosos era um inferno. Mas vida que segue.

Depois de uma rápida passagem pelo Hotel dos Viajantes, de acordo com o Pedro Renner, eles conseguiram alugar uma casa de quatro quartos, na Vila Ferroviária. “Ficamos dois em cada quarto e convivíamos numa área comum, onde fazíamos as refeições e combinávamos onde aprontar nas poucas horas que sobravam da Faculdade” conta Pedro Renner.

Numa dessas andanças pelas ruas da cidade, dá para compreender mais uma demonstração de como eles levavam a vida em alto-astral, muito em função de compartilhar distração e alegria. Ao encontrar um pelego embolado numa calçada, muito provavelmente caído de algum caminhão de lixo, Bagre exaltou que se tratava de uma premonição e que a partir daquele momento estava fundado o CTG Pelego Furado.

A peça rústica ganhou um cabo de vassoura, virou bandeira e foi parar na parede da república acadêmica. O estandarte, permaneceu por longos cinco anos, enquanto eles estudavam e faziam suas estripulias. Era um símbolo visual de identidade, mostrando como aquele grupo superava as vicissitudes, os altos e baixos daquele momento. Mas, sem querer querendo, já dava sinais de que dali sairiam cidadãos resilientes e predestinados a fazer história – pelos valores e personalidades que se formaram.