SOBRE VIVER DO LIXO

Dona Dirce, catadora de materiais recicláveis, compartilha uma história que poucos conhecem.


Crédito das fotos: Ariane Rodrigues

A bordo da Rebeca, apelido dado à camionete adquirida há cinco anos, dona Dirce Budke, 60 anos, cruza as ruas de Cruz Alta como quem conhece cada canto da cidade. Mas, apesar da familiaridade, a maior parte da sua vida não foi aqui. Ela é natural de Ibirubá, e o sonho de mudar de vida trouxe sua família para Cruz Alta em 1999. Uma história que tem muito de superação, mas, especialmente, de afeto e gratidão pelo trabalho que a acolheu quando tudo parecia perdido.

“Na catação, eu trabalho há dez anos. Quando eu vim embora de Ibirubá, eu vendi 31 hectares de terra para construir um frigorífico em Cruz Alta, uma fábrica de salame. Começamos a trabalhar em novembro de 1999. Funcionou bem durante três anos. Aí vieram outras leis, hoje tinha que mudar isso, amanhã tinha que mudar aquilo... Entrou um sócio e tirou o resto que eu tinha. Um dia, caminhando na rua, não sabia o que fazer da vida, passei no galpão [da Associação de Catadores] e as mulheres estavam colocando os litros [PVC] dentro da máquina. Pensei: Por que não ajudo aqui? Aí me interessei e me envolvi cada dia mais. Fiz um curso de arte, o ‘Reciclando vidas’. Eu tenho a máquina que corta garrafas, já cortei tantos copos, fiz chapéus de caixas de leite, fiz uma bandeira do Brasil e também do Grêmio e do Inter com recortes. Mas o chapéu de caixa de leite, pensa bem, até conseguir o formato, foi sofrido, mas já fiz vários. Teve uma época que eu fiz chinelo, que minha vó me ensinou. A gente resume o que a vida da gente é num dia como hoje falando contigo. Mas teria muita coisa pra contar.”

A dona Dirce coleta materiais recicláveis em locais específicos como lojas, gráficas, escolas, bancos e em algumas casas. A periodicidade varia, mas a quantidade de material compensa. E, com a camionete, ela tem condições de reunir cargas maiores, o que permite que fique mais tempo cuidando do filho.

“Eu tenho um filho que tem deficiência, hidrocefalia, e agora está com 27 anos, o Charles. Tenho outros dois filhos que já não moram mais em casa. Em primeiro lugar, vem o Charles. Depois, vem meu serviço. Para manter a camionete, nunca eu recebi um litro de gasolina ou um apoio. Tem gente que diz: A Dirce pode ter uma camionete? Sim, eu não preciso ganhar muito. E eu tenho que olhar esse outro lado em casa, mesmo que ganhe menos, procuro preservar o que eu tenho e cuidar do meu filho. O meu marido trabalha pra fora, acordamos às cinco horas, tomamos chimarrão, eu faço a vianda pra ele levar e ficamos eu e o Charles em casa. Quando me ligam, muitas vezes eu levo meu filho junto pra buscar o material.”

“Eu organizo o material em casa, no nosso pátio, dentro da construção do antigo frigorífico na entrada do Acelino Flores. Depois, eu levo meu material para o galpão da associação de catadores. A gente faz o fardo e identifica pelas letras do nome. Temos um caderno onde tudo é anotado. A monitora [do projeto] faz um levantamento dos pesos e materiais e envia para o comprador. Ele deposita o pagamento. Teve uma época que eu tirava até R$ 1.200 por mês, agora tiro em torno de R$ 500. Mas a gente ganha cesta básica e isso ajuda muito.”

A profissão ainda gera muita desconfiança na sociedade.

“Tem uma margem de pessoas que já foi atingida [conscientizada]. Mas ainda existem pessoas que olham pra nós e veem na gente alguém como um ladrão. Eu já sofri esse preconceito. É uma profissão complicada. Nem todos trabalham bem, e a classe fica mal vista. E, não tem como você sozinha querer fazer com que os outros catadores entendam e mudem. Tem todo tipo de catador. Uns agem de um jeito, outros de outro. Não dá pra generalizar.”