QIssoEuGênio?

Afinal, somos mesmo criativos?


Estamos no lado direito da revista Hemisférios. Mais precisamente, na primeira matéria da primeira edição desta proposta inovadora - e ousando falar de criatividade. Ao pensar nisso, confesso um certo frio na barriga. Afinal, como encarar esse desafio sem se sentir o mais criativo dos criativos? Ora, para falarmos de criatividade, o óbvio é pensarmos em falar com criatividade. #soquenao

Claro que espero ter uns “insights” e trazer referências ou abordagens que sejam, no mínimo, curiosas e inusitadas. Isso mesmo. Espero surpreender você de vez em quando. Mas, antes de começarmos os trabalhos como realmente propusemos ao apresentar o projeto da coluna QIssoEuGênio?, sinto que precisamos considerar algumas reflexões: o que é criatividade? Quando somos realmente criativos? Quais pessoas são bons exemplos de inovadores? E, assim por diante… Acredito que é dessa forma que poderemos tocar em assuntos mais específicos, que vão estar presentes nas futuras edições, com a tranquilidade de uma sintonia mais afinada e de um discurso que encontra base inicial nestas linhas.

O conceito "think outside the box"

Criatividade deriva da palavra criar… Dããã! Meio óbvio, não é mesmo?

Só que, se você olhar no dicionário, criar significa “provocar a existência de; fazer com que alguma coisa seja construída a partir do nada”. Senti uma responsa meio divina na coisa. Ou seja, “criar” pode carregar uma dose de prepotência, se seguirmos literalmente sua definição formal. Quem sabe é por isso que o humorista e palestrante Murilo Gun (37) não gosta do termo criatividade. Ele, que viaja o país falando sobre o tema, prefere a expressão combinatividade, que, confesso, acho mais criativa (ou melhor, combinativa) que a original. Hum, agora fiquei um pouco confuso, mas acredito que você tenha entendido.

Reforçando essa ideia, Steve Jobs (1955-2011), em seu famoso discurso na Universidade de Stanford, nos EUA, em 2005, disse: “Sem o curso de caligrafia, o Mac não teria várias fontes... talvez nenhum computador viesse a oferecê-las, se não fosse aquele curso. Claro que perceber isso era impossível na época da faculdade. Mas, dez anos mais tarde, tudo ficou claro”. Quando tinha 18 anos, SJ largou a faculdade e se inscreveu apenas em cursos que lhe interessavam. Um deles foi o de caligrafia artística, que inspirou a ideia de múltiplas fontes, tal como temos hoje em nossos computadores. Ele combinou dois conceitos distintos: computadores + caligrafia artística.

Também gosto do termo combinatividade, por ele ser mais realista. Podemos ter muitas ideias, mas elas normalmente são combinações de outras que já existem. Duas ou três que, combinadas de uma forma original, criam uma nova concepção, uma nova utilidade. Na verdade, uma nova solução. Quase sempre é isso. Novas soluções, mais eficientes, mais rápidas, mais divertidas. E esse nosso impulso para solucionar problemas pede um dos primeiros ingredientes da criatividade: a bagagem cultural.

Ora, se eu preciso de conteúdo para combinar, quanto mais tenho, mais chances de boas combinações? “Ma... ma...  ceeerta resposta!”.

Washington Olivetto (66), um dos publicitários mais bem sucedidos do mundo, disse, certa vez, durante uma entrevista para a televisão, que lia até mesmo bula de remédio na busca de inspirações. “No meu caso, a criatividade depende totalmente dessa realimentação. Se quero fazer publicidade boa, tenho que fazer uma publicidade que se pareça com a vida. Para isso, tenho que entender da vida”, afirmou.

Outro ponto que não pode ser esquecido é a motivação.

Quando ouço “pense fora da caixa”, juro que ainda lamento: onde está a P%&*%$ (piiiiiii) da caixa que tanto mal faz aos pobres dos meus pensamentos? As limitações que enquadram nossa mente podem ser estruturadas de várias formas: de uma infância sabotada à ansiedade que torna nossos dias bastante pesados. Mas, independente do quanto estejamos vitimados pelas cruéis paredes da caixa, como em qualquer desafio, a motivação nos afasta do verdadeiro carrasco das ideias: o não ver sentido naquilo que se faz. Todos estão carecas de ouvir que nascemos criativos (fato) e que bloqueamos nossa criatividade com padrões de comportamento engessados, com normas pré-estabelecidas (é vero). Mas, podemos resgatar nossa essência livremente criativa se encontrarmos os motivos certos. E quais são eles? Pense: o que motiva você a fazer algo novo? Bom, vamos considerar que quem melhor pode responder isso é você mesmo(a). Minha sugestão: concentre-se no que desperta sua motivação em cada coisa que faz e começará a ser naturalmente mais criativo.

A motivação leva à inspiração. Quando nos sentimos inspirados, nosso fluxo de pensamentos está mais livre. O acesso às bibliotecas mentais, cheias de memórias e sentimentos, flui intensamente. As várias possibilidades de solução estão proporcionais às infinitas combinações que o fluxo mental percebe poder conceber em um estado de iluminação. Esse estado nada mais é do que nossa mente pronta para nos recompensar com soluções inovadoras por perceber que vemos sentido em tudo aquilo. E ver sentido pode proporcionar motivação - o motivo que nos leva à ação.

Ah, e não dá pra esquecer que, com essa recompensa mental a nos motivar, há muito prazer envolvido. Nada mais prazeroso pro pintor do que pintar, pro cantor do que cantar, pro coreógrafo do que coreografar e assim por diante. A satisfação em ver uma ideia própria sendo executada e dando certo é indescritível.

A curiosidade matou o gato ou quebrou o galho?

Podemos encontrar uma série de dicas para nos tornarmos mais criativos. A internet está cheia delas: durma 8 horas por noite, comece o dia com uma corrida de três quilômetros, ouça música clássica, coma menos açúcar, deixe sua mesa bagunçada, blábláblá… Muitas podem funcionar para mim, mas não para você. O contrário também vale. Por isso, autoconhecimento é fundamental. Mas, em uma questão todos concordamos: quanto mais curiosos, mais aprendemos; quanto mais aprendemos, mais formamos uma bagagem de informações; e isso é fundamental para a criatividade.

Pense matematicamente: se eu tenho três objetos para decorar uma mesa, minhas opções são limitadas. Posso colocar as três alinhadas, posso pôr duas de um lado e uma de outro; posso usar apenas uma, ou, duas delas. Mas, no fim, vou chegar à conclusão de que não tenho muito que fazer, as possibilidades ficam restritas. No entanto, se eu fosse dono de uma loja de objetos de decoração, com milhares de peças à minha disposição, as chances de eu conseguir algo melhor e que pudesse mudar eventualmente, sempre que julgar necessário, é muitas vezes maior.

Vendo por esse lado, não existe cultura inútil, não é mesmo? Por isso, nosso célebre publicitário Olivetto diz ler de tudo. Além de ser um curioso de carteirinha, ele sabe que uma informação guardada lá no fundo da gaveta mental, que às vezes parece esquecida por completo, pode ser a solução genial para a nova linha de produtos da sua empresa. Seu cérebro acaba de vasculhar as profundezas de sua memória e, sabendo o que precisa resolver, tentou várias combinações. Até que - Eureka! - a ideia surgiu. E, quem diria, aquele filme que você viu anos atrás, e que nem gostou tanto assim - viu pra acompanhar a sua namoradinha da escola pra saber do que ela gostava -  possibilitou-lhe pensar de uma forma diferente sobre o problema. Quebrou o seu galho, não é mesmo?

O escritor brasileiro Fábio Zugman (38), especialista em criatividade e administração, traz em seu livro “O Mito da Criatividade” um exemplo com o qual muitos vão se identificar: fã de documentários e obcecado por relatos da Segunda Guerra Mundial, Steven Spielberg se inspirou na debandada francesa após a invasão nazista para escrever a cena da fuga dos moradores com a chegada dos alienígenas em Guerra dos Mundos. Pense na mente de Spielberg fervilhando com o que viu e imaginou a partir da sua pesquisa sobre a referida guerra:  substituir os nazistas por alienígenas (essa parte até não é tão difícil) e projetar isso como acontecimentos nas ruas dos EUA nos tempos atuais.

Uma curiosidade, ainda falando em inspiração: o livro “The War ofthe Worlds” (1897), de Herbert George Wells, no qual o filme é baseado, inspirou uma ideia supimpa!!! No dia 30 de outubro de 1938, a rádio CBS (Columbia Broadcasting System) interrompeu sua programação para encenar uma peça de radioteatro sobre uma invasão alienígena. Transmitida como uma interrupção jornalística, aliada ao fato de que muitos não tinham ouvido a breve introdução, pelo menos 1,2 milhão de pessoas acreditou na história e entrou em pânico. Reportagens externas, entrevistas com testemunhas, peritos e autoridades, além de sons ambientes e efeitos sonoros espalharam o terror nas localidades próximas a Nova Jersey por quase uma hora.

Outro fato curioso é que o diretor da peça teatral era o então jovem e quase desconhecido ator e diretor de cinema norte-americano Orson Welles (1915-1985). O episódio tornou Orson mundialmente conhecido; para muitos professores e cientistas da comunicação, o fato é considerado o mais marcante da história da mídia do século 20.

Energia 3.0

Como tudo em nosso organismo, pensar gasta energia. Nosso cérebro trabalha enlouquecidamente. E, claro, cansa também. Cansado, ele se preocupa em poupar energia e, assim, reduz muito as chances de pensar em um caminho alternativo. Opta pelos padrões mentais conhecidos.

O que isso quer dizer? Cansado mentalmente, você reduz sua criatividade.

É preciso poupar energia, como um esportista que poupa seus músculos nas horas que antecedem uma prova de alto desempenho. Isso explica o motivo de muitos criativos terem hábitos seguidos à risca. Normalmente, horários para acordar, fazer exercícios, descansar e comer não são questionados - são cumpridos. Sem pensar, eles simplesmente fazem. Tudo aquilo que pode ser feito sem recorrer a pequenas decisões que consomem energia desnecessariamente parece ser um segredo importante para estar 100% na hora em que o cérebro mais precisa.

Nessa espécie de piloto automático, muitas decisões já estão tomadas. Adotando essa prática, o romancista inglês Charles Dickens (1812-1870), considerado um dos mais criativos de sua época, por muitos anos não quebrou sua rotina. Acordava às 7h, tomava café às 8h, das 9h às 14h se dedicava exclusivamente ao trabalho, escrevendo diariamente em torno de duas mil palavras. Almoçava e, logo após o almoço, caminhava por três horas nas ruas de Londres, observando o comportamento das pessoas. Jantava às 18h e ficava com familiares e amigos até à meia-noite, quando ia dormir. Simples assim.

E o vento levou... o Brainstorm de Alex Osborn

Sendo bem direto: pesquisas recentes descobriram que as pessoas têm ideias melhores sozinhas. O trabalho em grupo, como em um brainstorm – termo criado pelo publicitário Alex Osborn (1888-1966) – pode reforçar a aceitação sobre uma proposta e dar mais confiança para quem a sugeriu, mas não contribui tanto assim para o surgimento de outras. O foco se perde facilmente, e a má interpretação de um colega pode mandar por água abaixo uma grande sacada que só precisaria de um pouco mais de tempo para ficar mais clara; os tímidos se calam, e os falantes encontram um bom espaço para reafirmar suas concepções pessoais, que nem sempre são uma boa contribuição.

Uma grande ideia começa a surgir na solidão, pois a ausência de estímulos diversos, que a interação social, por exemplo, tende a provocar, permite ao cérebro concentrar seu foco e sua energia no que realmente importa: resolver o problema. Isso não quer dizer que conversando com amigos, ou ouvindo música, ou dançando na balada não podemos ter uma grande ideia. Muitas vezes é isso que acontece. Mas, possivelmente, por já termos identificado quais problemas queremos resolver, por termos traçado alguns planos nesse sentido e, igualmente, alimentado nossa memória com ingredientes muito ricos em concepções, a mente, a qualquer momento, pode ejetar uma ideia. Mas isso não deixa de ser o resultado de momentos de concentração e discernimento.

Agora, relaxe!

Uma grande ideia não necessita de receita para nascer. É fruto de um esforço que sempre traz resultado, mas sempre de uma forma um pouco (ou muito) diferente. O importante é a persistência, a insistência e a determinação em alcançá-la. E, entre uma sessão e outra de concentração e foco, é muito importante relaxar. O cérebro precisa de intervalos para deixar o inconsciente trabalhar. E o consciente tem que sair de cena, deve entreter-se com outras coisas. Essa fase é chamada de Incubação. Uma espécie de tempo de maturação, de preparo, em que a combinatividade, em núcleos inconscientes, testa possibilidades. Por isso, quando relaxamos profundamente, começamos a ter ideias. Antigas e profundas escavações mentais que buscam respostas inovadoras, que estavam em curso recentemente ou não, começam a liberar suas sugestões. E o consciente, relaxado, tranquilo, começa a receber esses estímulos e a decidir o que deve ou não considerar.

Atividades de lazer, recreação, férias, finais de semana são grandes aliados da criatividade. Eles dão liberdade à mente para ela renovar suas energias e testar possibilidades. Depois de muito trabalho, da definição do problema (objetivo), de grandes absorções de conteúdo, depois de se isolar e de interagir, deixe a mente enxergar o todo. Relaxe! Saiba intercalar os períodos de esforço e ócio, de foco e esquecimento. Com tudo isso, as grandes ideias sempre virão. Acredite nisso, pois você é, sim, criativo(a) por essência. Só precisa se conhecer cada vez melhor para explorar mais o seu potencial inovador.

Vlw!!!